Doze, cinco, zero. Falta de comboios assusta comerciantes de São Martinho do Porto

Doze, cinco, zero. Falta de comboios assusta comerciantes de São Martinho do Porto

Muitas famílias aproveitam o comboio para ir à praia desta vila, que fica no concelho de Alcobaça. No último dia de viagem a percorrer a Linha do Oeste, a Antena 1 visitou várias lojas na Avenida Marginal e ouviu o desalento dos comerciantes perante a hipótese de não haver comboios na época alta.

Gonçalo Costa Martins - Antena 1 /
Fotografias: João Marques - RTP

Depois da tempestade, a bonança trouxe de volta uma esplanada cheia na Gelatomania. O verão é “sempre muito mais forte”, conta Daniel, um dos empregados de mesa que vai servindo crepes e gelados na mesa.

Na hora do lanche da tarde, além das esplanadas, também o resto da avenida tem um movimento considerável. Ao mesmo tempo, uma máquina escavadora vai repondo areia na praia que não escapou ilesa à tempestade Kristin.

Longe de estar resposta está a Linha do Oeste. “É muito importante ter os comboios”, considera Daniel, pelo que a sua ausência “é uma quebra, mas as pessoas vão acabar sempre por vir cá”.

A confiança não é a mesma entre todos os comerciantes. No quiosque Pérola da Concha, a proprietária Alexandra Gomes acredita que o fecho da linha fará mossa.

“Por incrível que possa parecer, as pessoas, as famílias utilizam muito a linha do comboio para trazer os miúdos até à praia”, descreve, e “nota-se perfeitamente a afluência das pessoas nos horários do comboio”.

“É notório quando o comboio chega e quando vai embora a nível de pessoas que se veem na rua”, acrescenta.

A baía tem uma forma de concha, beleza única em que dá para ver e ouvir o mar a partir da estação de São Martinho do Porto. Agora ainda é mais fácil de escutá-lo porque a estação - a menos de 100 metros do areal - está em silêncio, sem comboios, e ainda sem garantias de serviços alternativos. 
 Olhando para a falta de estacionamento, a Linha do Oeste “vai fazer muita falta, porque os jovens deslocam-se muito no comboio”, receia Célia Caetano, gerente do Café Oceano que tem nos jovens uma fração importante no negócio: “Temos o que os jovens procuram, os hambúrgueres, as sandes, as refeições rápidas para eles poderem seguir para a praia”.

Com a época alta a começar em junho, as expectativas são moderadas num local que parece ter sido poupado aos estragos da Kristin. O presidente da Associação de Promoção de Comércio e Turismo de São Martinho do Porto, Nelson Cairrão, antevê que o fecho da Linha do Oeste possa enfraquecer negócios.

"Se vamos perder mais uma maneira de trazer pessoas a São Martinho do Porto, é tudo uma dificuldade para o comércio”, afirma, pois é menos dinheiro a entrar na economia local.

Desde que a Antena 1 começou a percorrer a Linha do Oeste, na segunda-feira, vários moradores de localidades atravessadas por este serviço diziam que apanhavam o comboio para chegar à praia – especificamente a de São Martinho.

Nelson Cairrão deixa por isso o apelo para a CP e as empresas de autocarros arranjarem uma solução com carreiras de Leiria e das Caldas da Rainha até à vila. 
“Quando vim para aqui havia, 12 comboios em cada sentido”

A partir da estação, quem está junto à linha consegue ver uma fresta do mar. Manuel Rodrigues tinha esse privilégio quando fazia a barba porque vivia no primeiro andar da estação, numa altura em que havia menos prédios à frente.

Foi chefe de estação durante cerca de 30 anos. Natural de uma aldeia de Oliveira de Frades, em Viseu, entrou neste trabalho por acaso. “Oh Rodrigues, faça o pedido para a CP”, foram por alto as palavras do chefe da estação de Pinheiro de Lafões (já encerrada na Linha do Vouga). 
Entrou em 1964 na empresa, passou pelo Entroncamento e foi em 1975 que se fixou em São Martinho do Porto. Pouco tempo depois tornou-se chefe de estação. 

“Executava o serviço geral que tinha uma estação, desde o serviço de circulação, partidas e chegadas, cargas e descargas, assim como o atendimento ao público, incluindo as entregas das mercadorias e a venda dos bilhetes”, explica Manuel. 

Mesmo sem serviço, a estação é movimentada porque está inserida no núcleo central da vila. Mas a sala de espera está vazia e com todos os balcões fechados. Manuel Rodrigues recorda o fluxo que já houve por aqui.
“Quando vim para aqui havia, 12 comboios em cada sentido”, enquanto até há umas semanas eram cinco. “Hoje não passa nenhum”, recordando as palavras do ministro Miguel Pinto Luz de que seriam precisos nove meses para repor a circulação.
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